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O Autismo - caminhos de uma pesquisa

Atualizado: 26 de ago. de 2025

Quando iniciei meu Doutorado em Psicologia eu ainda não sabia os caminhos que a vida havia preparado para mim...







O autismo faz parte da minha pesquisa clínica e pessoal. Tendo sida diagnosticada aos 48 anos e sendo mãe de um filho com Autismo Nível 1, eu vivencio o Autismo de forma muito íntima. Como profissional da área da saúde mental, educação e pesquisadora, procuro me atualizar das pesquisas realizadas no campo do Autismo por profissionais no mundo todo.


“A pesquisa começa no corpo. No que dói, no que pulsa, no que não se encaixa. Não foi a tese que me escolheu. Fui eu que precisei entender o que minha história tinha a dizer.”


Quando iniciei meu doutorado em Psicologia, eu ainda não sabia os caminhos que a vida havia preparado para mim. Sabia, sim, que o corpo me chamava. Que havia algo na experiência encarnada, especialmente no corpo que sofre em silêncio, que precisava ser escutado com mais delicadeza, mais profundidade, mais verdade.

O tema do autismo não era, naquele momento, uma escolha racional ou planejada. Era uma questão que atravessava minha prática clínica, minhas leituras, minha própria vida. Mas foi no percurso, como sempre ensina a fenomenologia, que os contornos da pesquisa começaram a emergir.



Corpo, silêncio, desvio


O autismo, por muito tempo, foi pensado como um conjunto de déficits, na comunicação, na interação, no comportamento. Mas o que esses modelos não conseguiam compreender era o que se passa por dentro de quem vive o mundo de forma sensorialmente ampliada, socialmente desajustada, emocionalmente intensa e, muitas vezes, silenciosamente em sofrimento.

Foi então que me vi diante da pergunta que move tudo o que tenho feito: Como é viver no mundo com um corpo que sente demais, mas não encontra nome para o que sente?


Essa pergunta me levou às mulheres, para além da minha própria experiência. Àquelas que receberam o diagnóstico tarde ou nunca receberam. Àquelas que viveram suas infâncias sendo chamadas de “estranhas”, “boazinhas demais”, “exageradas”, “difíceis”. Àquelas que desenvolveram estratégias de camuflagem para sobreviver em ambientes hostis. Às que se silenciaram para serem aceitas.



A experiência perceptiva do corpo próprio



Minha pesquisa se chama “A experiência perceptiva do corpo próprio em mulheres adultas diagnosticadas autistas”. Ela nasce do entrelaçamento entre minha trajetória clínica, minha escuta fenomenológica e minha experiência como mulher neurodivergente. Mas ela vai além do diagnóstico. Porque o diagnóstico é apenas a porta de entrada. O que me interessa é o modo de ser no mundo, e os modos de sofrer nele.

Inspirada por Merleau-Ponty, Fuchs, Donnellan, Leary e tantas outras vozes que pensam o corpo como sujeito, e não como objeto, busco compreender como essas mulheres percebem o próprio corpo, como regulam suas sensações, como sofrem com a incompreensão dos outros e como, apesar de tudo, constroem formas singulares de existir.



Escutar o corpo é gesto político


Estudar o autismo a partir do corpo vivido é um gesto epistemológico e político.

É dizer que há saber na experiência. Que a vivência encarnada é também teoria. Que a clínica não pode se contentar com categorias diagnósticas e escalas padronizadas, ela precisa voltar ao corpo, à sensação, ao gesto, ao tempo vivido.

Ao escutar essas mulheres, e ao escutar a mim mesma nesse processo, percebo que minha pesquisa não se limita às fronteiras da universidade. Ela quer tocar a vida. Transformar práticas. Descolonizar olhares. Reescrever narrativas.


Um convite à escuta

Este texto não é um ponto final.

É um convite.

A quem pesquisa: escute mais.

A quem clinica: suspenda os manuais.

A quem educa, convive, ama, contrata ou cuida: esteja disposto a desconstruir o que você acha que sabe sobre o outro.

E a quem vive o autismo no corpo: saiba que seu modo de ser é legítimo.

Que há ciência, poesia e potência na sua existência. E que há um lugar na pesquisa que te pertence.

Porque, às vezes, é no que escapa à norma que nascem os verdadeiros caminhos da vida.


#autismo #autistasadultos # autismoinfantil



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