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O Corpo como Casa: Subjetividade, Sensorialidade e Pertencimento na Experiência Neurodivergente

"O corpo é a nossa ancoragem no mundo, o ponto zero da orientação de todas as coisas." - Maurice Merleau-Ponty, Fenomenologia da Percepção

Um corpo que sente demais: onde mora o excesso?

Para muitas pessoas neurodivergentes, especialmente mulheres autistas, o corpo não é apenas o lugar da vida, mas também o lugar do estranhamento. Um corpo que sente demais, que não consegue filtrar, que se afeta com a luz, com os sons, com a textura da roupa ou com o cheiro do ambiente. Esse corpo, muitas vezes considerado “hipersensível” ou “refratário” aos contextos sociais normativos, é, na verdade, o lugar primeiro de um tipo de inteligência sensível: um saber que não se expressa apenas na lógica ou na linguagem formal, mas que pulsa nos gestos, nas reações fisiológicas, nos silêncios.

A fenomenologia, especialmente na obra de Merleau-Ponty, nos convida a repensar a noção de corpo não como objeto anatômico, mas como corpo vivido (Leib), como centro da experiência e da constituição do mundo. Somos nossos corpos, e é por meio deles que habitamos o mundo e construímos sentido. Em pessoas autistas, esse corpo vivido expressa formas singulares de perceber, interpretar e responder ao ambiente, formas que são muitas vezes desconsideradas ou patologizadas por olhares clínicos tradicionais.


A violência do apagamento sensorial

Anne Donnellan e Martha Leary, ao proporem uma abordagem centrada nas diferenças sensório-motoras, alertam para os riscos de intervenções que ignoram ou minimizam essas diferenças. Quando uma criança é constantemente interrompida em seus movimentos autorregulatórios (como o balançar do corpo, o uso de objetos repetitivos, ou a busca por certos padrões táteis ou auditivos), o que se rompe não é apenas uma estratégia adaptativa, mas o fio sensível que a mantém conectada a si e ao mundo.

Esse apagamento sensorial não é neutro, ele é uma forma de violência epistêmica (Fricker, 2007), pois nega o valor das formas não hegemônicas de conhecer, sentir e se expressar. A epistemologia da neurodiversidade, ao contrário, propõe um paradigma em que a singularidade sensorial é fonte de saber, e não de déficit.


Winnicott e a importância de um ambiente suficientemente bom


A psicanálise winnicottiana nos oferece outra chave de leitura: para que um sujeito se desenvolva de forma saudável, é necessário um ambiente suficientemente bom, um espaço relacional onde suas necessidades sensoriais, afetivas e simbólicas sejam reconhecidas e acolhidas.

No caso de pessoas autistas, esse “ambiente suficientemente bom” não pode ser genérico. Ele precisa ser adaptado, responsivo e construído em diálogo com a realidade sensorial do sujeito. A escuta clínica, nesse contexto, deve ser também uma escuta do corpo: do silêncio, da tensão muscular, do olhar que se desvia, do gesto repetido, do ritmo da fala ou da ausência dela.

Como lembra Fuchs (2010), é na intercorporeidade, na relação entre corpos vivos, que emerge a possibilidade de encontro. E é nesse encontro que se tece, pouco a pouco, o fio da presença e do pertencimento.


Da camuflagem ao reencontro com o corpo

Mulheres autistas, muitas vezes, desenvolvem desde cedo estratégias de camuflagem: disfarçam seu desconforto sensorial, imitam padrões sociais, escondem o cansaço, o enjoo, a dor. Mas esse esforço contínuo de adequação tem um custo alto. O corpo, que deveria ser casa, torna-se prisão. A mente, em alerta constante, esgota-se.

Reconhecer esse processo é um ato de resistência. E mais do que isso: é um ato de cuidado. Ao invés de forçar o corpo a caber nos moldes da normalidade, o caminho terapêutico, clínico, educacional, existencial, pode ser o de acompanhar o corpo no seu ritmo, permitir que ele fale, que ele chore, que ele sinta e se reorganize.


Caminhos possíveis: regulação, escuta e co-construção de mundos

O Instituto Eu no Mundo nasce justamente da escuta desses corpos silenciados. Aqui, acreditamos que o caminho da inclusão começa com o reconhecimento da diferença, e que a regulação emocional e sensorial não é um pré-requisito para a vida em sociedade, mas parte do próprio processo de viver com dignidade.

Nossos projetos — como o Método Equilibre, e os cursos formativos para famílias e educadores,

são experiências encarnadas de cuidado, afeto e reconstrução subjetiva. Propomos práticas que vão da autoescuta sensorial à criação de narrativas próprias, passando por exercícios de regulação, arte, filosofia e reflexão crítica.

É preciso um novo pacto: uma escuta que se curva diante da complexidade do outro, uma educação que acolhe o corpo como fonte de saber, uma clínica que não pressiona, mas acompanha. E sobretudo, uma sociedade que reconheça: há múltiplas formas de habitar o mundo, e todas são legítimas.

 
 
 

Instituto Eu no Mundo

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